A “parentalidade do cansaço” e o peso da culpa.
- Tiago Koch

- há 4 dias
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Atualizado: há 3 dias

A culpa é algo que se vê cada vez mais presente na parentalidade e, ao meu ver, isso se deve principalmente a uma cultura de performance, uma busca contínua pelo pelo melhor, pelo impecável, pelo máximo, por aquilo que é inalcançável: a perfeição. É o que o filósofo Byung-Chul Han chama de "Sociedade do Cansaço", ou neste caso, a “parentalidade do cansaço”. Precisamos ser os melhores no trabalho, no físico, na saúde, na inteligência, na comunicação, na produtividade, no amor, no sexo, na espiritualidade e, claro, no cuidado.
Resultado: a culpa é rotina entre as mães e cada vez mais comum na vida dos pais. Sim, também existe culpa paterna. Assumir isso é algo fundamental na construção de parentalidades mais saudáveis, parentalidades possíveis.
Porém, não podemos correr o risco de cairmos numa falsa simetria.
Pensa comigo:
Será que a culpa é sentida da mesma forma?
Qual o peso da culpa para mães e pais?
De quem a sociedade cobra mais quando o assunto é cuidado?
Quem se cobra mais quando erra?
Por que eu, que aqui escrevo, consigo ser mais compassivo com meus próprios erros do que minha companheira consegue ser com os dela?
E por que isso é algo tão comum numa grande parcela das famílias?
Seguindo o que nos sugere Elisabeth Badinter, Chelsea Conaboy, Vera Iaconelli, Camila Ramos, Bell Hooks e Valeska Zanello, enquanto as mulheres são cobradas baseadas na ideia de que são cuidadoras inatas, com todas as habilidades necessárias para cuidar e, consequentemente, a obrigação de serem perfeitas, os homens trazem o benefício de estarem sempre aprendendo a cuidar. E isso muda tudo.
Se o cuidado é visto como um "instinto natural" para as mães, qualquer dificuldade ou erro é sentido como uma falha de caráter ou de natureza. Se ela não sabe o que o choro do bebê significa, ou não consegue amamentar, ela se sente "defeituosa". A culpa materna é, portanto, punitiva e permanente.
Já para os homens, se o cuidado é visto como "ajuda" ou como algo que nós “estamos aprendendo", o erro é perdoado como parte do processo. Se eu esqueço de olhar a agenda da escola, "eu estou tentando". A culpa paterna, quando existe, costuma se manifestar de forma autoempática e transitória.
Se é inato, não pode falhar. Se é aprendizado, o erro faz parte.
É fundamental notar, no entanto, que esse peso não é distribuído de forma idêntica entre todas as famílias. Quando lançamos um olhar interseccional, percebemos que a raça e a classe social mudam radicalmente o tom dessa cobrança. Para mães brancas de classe média, a culpa muitas vezes gira em torno da "performance do cuidado perfeito"; para mães negras e periféricas, a cobrança social é pela própria sobrevivência e dignidade, onde o erro não é lido apenas como falha individual, mas como um pretexto para a intervenção e o julgamento do Estado.
Da mesma forma, a 'autoempatia' paterna não é um benefício universal. Se por um lado, o homem branco de classe média é aplaudido pelo esforço, o pai negro e periférico muitas vezes luta contra o estereótipo da ausência e violência, vivendo sob uma vigilância que não permite o erro. Para muitos homens, a vulnerabilidade do cuidado ainda é um luxo que a estrutura social e econômica não permite.
A vulnerabilidade de quem cuida também é hierarquizada. E a culpa também. Reconhecer esses abismos é o primeiro passo para pararmos de romantizar o peso das mães e de glamourizar o aprendizado dos pais.
Precisamos humanizar o cuidado, retirando-o do campo do instinto e trazendo-o para o campo do aprendizado coletivo. Afinal, enquanto o cuidado for tratado como biológico para umas e esforço opcional para outros, a perfeição continuará sendo raiz da nossa culpa. Ou melhor, da culpa delas.
Ao permitirmos que o cuidado seja aprendizado para todos, quem sabe o erro deixa de ser falha e passa a ser apenas humano?
Por Tiago Koch Educador Perinatal com foco nas paternidades Idealizador do Projeto Homem Paterno




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